Dr. Felipe explica sobre tratamento para vítimas de abuso sexual

Por Isaele Machado 18/05/2017 - 14:39 hs
Foto: Divulgação
Dr. Felipe explica sobre tratamento para vítimas de abuso sexual
Na foto, o médico Doutor Felipe Batistela

No dia 18 de maio de 1973, uma menina de 8 anos foi sequestrada, violentada e cruelmente assassinada no Espirito Santo. Seu corpo apareceu seis dias depois carbonizado e os seus agressores, jovens de classe média alta, nunca foram punidos. A data ficou instituída como o “Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes” a partir da aprovação da Lei Federal nº. 9.970/2000. O  “Caso Araceli”, como ficou conhecido, ocorreu há quase 40 anos, mas, infelizmente, situações absurdas como essa ainda se repetem.

Buscando ressaltar a importância do combate ao abuso e exploração sexual infantil, o CN preparou uma entrevista especial com o médico Felipe Batistela.

CN - Como o abuso e a exploração podem interferir na saúde mental da criança? É possível tratamento ou recuperação?

Dr.Felipe – Até os 7 anos é a fase mais importante da personalidade da criança, a personalidade é o somatório do temperamento mais o caráter. O temperamento é genético, algumas crianças são agitadas, outras agressivas ou calmas. Já o caráter depende de onde a criança cresce, ambiente e educação.

Se uma criança vive em um ambiente hostil, onde é abusada sexualmente de forma física ou verbal isso pode levar a uma repercussão direta no desenvolvimento da personalidade, como uma possível evolução para um transtorno psiquiátrico grave na adolescência, idade adulta e dependendo da situação na infância.  É possível fazer tratamento para esses casos e o sucesso da abordagem depende de quão precoce isso é feito e a prevenção da reincidência do abuso.

CN - Já atendeu casos desse tipo?

Dr.Felipe - Sim, de uma forma menos frequente crianças, costumo atender mais adultos que sofreram abusos ou algum tipo de exploração sexual.

CN -  Como a psiquiatria trabalha nesses casos?

Dr.Felipe - O tratamento psiquiátrico é feito de duas formas: psicofarmacologicamente por meio da modulação cerebral em transtornos psiquiátricos que tenham causas associadas ao abuso na infância e psicoterapicamente que visa diminuir o sofrimento emocional causado no passado e que venha se perpetuar no presente. É importante enfatizar que é um tratamento extremamente delicado, cuja resposta leva em média seis meses para surtir efeito.

 

CN – A pedofilia pode ser tratada como doença? O que você acha?

Dr.Felipe - Sim. A pedofilia é descrita como transtorno, pois entra no grupo das parafilias, quando a pessoa perde a capacidade de sentir prazer em uma relação afetiva moralmente considerada normal, é quando o indivíduo busca formas incomuns para saciar seus desejos para sentir prazer.  

 

CN - Você acredita que possa haver tratamento para pedofilia?

Dr.Felipe - Como todo transtorno é possível tratamento, o qual é extremamente complexo e demanda anos para uma possível retomada da capacidade do individuo sentir prazer das formas convencionais aceitas pela sociedade sem agravar dano físico ou psicológico a nenhuma das partes.

 

CN -  Como você avalia os mais de 27 mil casos de abuso e exploração que foram registrados nos últimos cinco anos no Brasil?

Dr.Felipe - É alarmante por não traduzir a realidade, uma vez que devido ao preconceito das famílias. Para cada caso de abuso sexual infantil registrados na polícia e conselho tutelar existem dez que foram omitidos pelas famílias.

CN - Seria esses crimes falta de informação, doença ou falta de punibilidade? Porque?

Dr.Felipe - Sim, mas a principal causa é preconceito em admitir ou justificar o fato por vergonha. Cerca de 80% dos casos, o agressor encontra-se dentro da própria família, sendo os mais comuns: pais, irmãos mais velhos e tios. Posteriormente podemos atribuir à causa a falta de informação que consequentemente leva a uma forma tardia e incorreta de lidar com a pedofilia sobrando apenas a abordagem punitiva como uma panaceia para o problema.

 

CN - Em sua opinião qual é o melhor meio de prevenir esses crimes?

Dr.Felipe - A retomada da convivência com qualidade na família que pressupõe diálogo entre filhos e pais e a abertura para as mais diversas queixas as quais são pistas para identificação precoce de um possível abuso. (Isso compete à família).

Já no ponto de vista da sociedade, a escola deve atentar para mudanças comportamentais ou lesões físicas visíveis na pele, e quase sempre acompanhadas de um desculpa mal estruturada pela criança ou até mesmo pelos pais.

 

 

Diferença entre Abuso e Exploração Sexual

 

O abuso sexual envolve contato sexual entre uma criança ou adolescente e um adulto ou pessoa significativamente mais velha e poderosa. As crianças, pelo seu estágio de desenvolvimento, não são capazes de entender o contato sexual ou resistir a ele, e podem ser psicológica ou socialmente dependentes do ofensor. O abuso acontece quando o adulto utiliza o corpo de uma criança ou adolescente para sua satisfação sexual. Já a exploração sexual é quando se paga para ter sexo com a pessoa de idade inferior a 18 anos. As duas situações são crimes de violência sexual.